quarta-feira, setembro 30, 2009

Manguinhos

A foto acima mostra a pouco habitada área de Manguinhos por volta dos anos 1920. Já se vê, no alto do morro, o castelo neomourisco projetado pelo arquiteto Luiz de Moraes e construído, a partir de 1904, para sediar o Instituto Soroterápico Federal, que vinha sendo dirigido, desde 1900, pelo sanitarista Oswaldo Cruz, e que hoje é a Fundação que leva seu nome.

No centro da foto pode-se ver a chaminé de um crematório de lixo que foi demolido, em 1940, sem nunca ter sido utilizado.

Ao fundo, a região do pedregulho onde, hoje, está o famoso conjunto habitacional projetado por Reidy, em 1947, e que leva o nome oficial de Conjunto Prefeito Mendes de Moraes.

Abaixo, uma foto atual do prédio centenário da Fundação Oswaldo Cruz.


quarta-feira, setembro 23, 2009

Sede do Jockey Club Brasileiro

Quando da construção da Av. Central, hoje Rio Branco, existiam dois clubes dedicados às corridas de cavalos: o Jockey Club e o Derby Club (o primeiro, fundado em 1868; o segundo, em 1885). A sede do Jockey foi construída na esquina da Avenida com a Almirante Barroso, fronteira ao Clube Naval, como mostrado na foto da revista LIFE.

A seu lado, e próximo à Escola Nacional de Belas Artes, hoje Museu, ficava a sede do Derby Club. Na foto abaixo, vê-se os dois clubes e uma nesga da ENBA.

Em 1932, os dois clubes fundiram-se formando o Jockey Club Brasileiro. Nova sede social, projetada por Lucio Costa, na década de 1950, foi construída em um prédio que ocupa toda a quadra compreendida pelas Rua Primeiro de Março, Av. Nilo Peçanha, Rua Debret e Av. Almirante Barroso. O arquiteto “destinou à sede a cobertura e a fachada principal, ficando as três outras para renda e o miolo do edifício, em todos os andares, para estacionamento - mais de 700 vagas” (in “Lucio Costa: Registro de uma Vivência” pg. 420). Desenho da fachada na figura abaixo.

No local até então ocupado pelos dois prédios da Av. Rio Branco, foi construído, em 1981, o Edifício Linneu de Paula Machado, nome do primeiro presidente após a fusão..







quarta-feira, setembro 16, 2009

Rua da Guarda Velha

Conta-nos Brasil Gerson que a Av 13 de Maio teve origem em um caminho entre a Lagoa de Santo Antonio (onde hoje é o Largo da Carioca) e a Lagoa do Desterro, ao pé do morro do Desterro (hoje Santa Teresa). No governo de Antonio Gomes Freire de Andrade (1733-1763) _Conde de Bobadela_ ganhou foros de rua, foi conhecida como Rua do Bobadela, depois da Guarda, da Guarda Velha, hoje, Avenida 13 de Maio.

Atendendo aos reclamos dos frades do convento contra a algazarra produzida pelos escravos que iam ao chafariz da carioca recolher água para seus senhores, Gomes Freire determinou que além da obrigatoriedade de se organizar uma fila, fosse mantida a ordem, pelo que instituiu um posto de guarda para vigiar a aplicação da regra. Passou a ser conhecida como Rua da Guarda e, quando novos postos foram instituídos na cidade, passou a Rua da Guarda Velha.

quarta-feira, setembro 09, 2009

Silogeu


Prédio construído durante as reformas do Prefeito Pereira Passos (1902-1906), e demolido no início da década de 1970 para o alargamento da Rua Teixeira de Freitas, contígua ao Passeio Público. Já se vê, por trás dele, o atual prédio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Levou o nome de silogeu por abrigar, além do IHGB, a Academia de Medicina, o Instituto dos Advogados do Brasil, e a Academia Brasileira de Letras.

O curioso é que foi totalmente substituído pela Rua Teixeira de Freitas que era bastante estreita, como mostra a foto abaixo, de 1934. O prédio está no canto direito, e o alargamento foi feito sem prejuízo para o Passeio Público.




quarta-feira, setembro 02, 2009

Roda dos Expostos

No século XVI não era incomum abandonarem-se recém-nascidos em lugares públicos para serem encontrados; eram os chamados “expostos”.

Em 1726, o Vice-rei Vasco Meneses determinou que todas as crianças “expostas” fossem abrigadas em asilos. A Santa Casa da Misericórdia, no Rio, adotou, então, o sistema da “Roda”, utilizado na Europa desde a Idade Média, e que, aqui, atravessou a Colônia, o Império e chegou à República.

Consistia de uma caixa cilindrica de madeira, colocada no muro do hospital, sendo que uma parte dava para a rua e outra para dentro da instituição. A criança era colocada e a caixa girada de forma a conduzir a criança para o interior. Havia uma corda de uma sineta para avisar que uma criança havia sido entregue. A identidade que quem a colocasse ficava desconhecida.

O dispositivo usado pela Santa Casa da Misericórdia do Rio (mostrado na foto) encontra-se, hoje, no museu do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. O IHGB ocupa vários andares do edificio nº 8 da Avenida Augusto Severo, junto ao Passeio Público.

quarta-feira, agosto 26, 2009

Campo de São Cristovão

Charles Dunlop nos conta que o Campo de São Cristovão era uma área suja e cheia de capim onde o Exército, às vezes, se exercitava. A iluminação era escassa e, quase diariamente, os jornais noticiavam assaltos na região.

O Prefeito Pereira Pasos resolveu reformá-lo. O local foi limpo, árvores foram plantadas, canteiros foram preparados. Alamedas de roseiras e alguns repuchos surgiram.

Finalmente, no domingo 11 de dezembro de 1906, foi inaugurado oficialmente. Desde a véspera fora enfeitado com galhardetes e folhagens. As autoridades percorreram o parque e, no coreto construído a um canto da praça, o Prefeito entregou, ao povo de São Cristovão, o Campo totalmente transformado.

“Estava, incontestavelmente, um primor” conclui Dunlop.




quarta-feira, agosto 19, 2009

Antes da Av. Pres. Vargas

A foto aérea mostra trecho do centro da cidade onde seria aberta a Av. Presidente Vargas, inaugurada em 7 de setembro de 1944.

À esquerda vê-se a cúpula da Igreja da Candelária. Todos os quarteirões que ficavam em seu alinhamento foram demolidos e convertidos na pista central, e as ruas que delimitavam estas quadras passaram a constituir o que hoje são as pistas laterais da Avenida.

É de se notar o traçado inclinado da Rua Miguel Couto e a Igreja de São Pedro dos Clérigos, destruída para a construção da Avenida.

quarta-feira, agosto 12, 2009

Bonde Ipanema



O bonde Ipanema prepara-se para sair de seu ponto final na Rua Teixeira de Melo, e tomar à direita na Rua Visconde de Pirajá. Reparem que há um banco na calçada, para uso dos passageiros que aguardavam o transporte. Não há indicação de data no postal, mas acredito que seja da década de 1940.

Na foto seguinte, já em 1950, vê-se um bonde em detalhe, inclusive com alguns passageiros de pé entre os bancos.








quarta-feira, agosto 05, 2009

Morro do Castelo e Ilha de Villegaignon


Curiosa foto tirada do Morro do Castelo em direção à Niterói, no início do século passado. A Igreja de Santa Luzia é vista de fundos, e sua praia já apresenta sinais do primeiro de vários aterros nesta região.

A ilha que se vê no meio da foto é Villegaignon. Entre a ilha e o continente foi construído o Aeroporto Santo Dumont.

A segunda foto, do Google Maps, mostra a igreja assinalada com um ponto preto, e a Ilha de Villegaignon _também já acrescida por aterros_ onde, desde 1938, está a nossa Escola Naval.




quarta-feira, julho 29, 2009

Almirante Barroso - monumento

O monumento ao Almirante Barroso foi inaugurado em 1909, na praia do Flamengo, entre a Av. Beira-Mar e o local onde, em 1923, seria erguido o Hotel Glória.

Em 1977, foi transferido para o final da Praça Paris, na altura da Glória.

A estátua é obra do escultor José Otávio Correia Lima, tem 2 metros de altura e fica sobre uma coluna cilíndrica, a 8 metros do solo. O pedestal, que contém os restos mortais do Barão do Amazonas, ostenta as seguintes legendas: «Riachuelo - 11 de Junho de 1865» e «Ao Almirante Barroso - a Nação». Duas figuras aladas representam a Pátria e a Vitória. Há, ainda, quatro medalhões, nos ângulos, com efígies dos oficiais Oliveira Pimentel, Pedro Afonso Ferreira, Feliciano Maia, e Lima Barros; unindo os medalhões, os nomes dos navios e comandantes que participaram da Batalha Naval do Riachuelo. Mais abaixo, medalhões com as figuras do Guarda-Marinha Greenhalg e do Imperial Marinheiro Marcílio Dias.




quarta-feira, julho 22, 2009

Largo do Machado

Surgiu como Campo das Laranjeiras, no inicio da Rua das Laranjeiras, rua que acompanhava o curso do Rio Carioca.

Foi alinhado e classificado como logradouro público em 1810.

Nele estabeleceu-se um acougue, que exibia, como emblema, a figura de um enorme machado, razão pela qual passou a ser conhecido como Largo do Machado.

O nome pegou, e o povo continuou chamado-o assim, mesmo quando a municipalidade nomeou-o, oficialmente, de Largo da Glória, em razão da Igreja Matriz da Glória, construída a partir de 1842 e, depois, de Praça Duque de Caxias, graças à inauguração, em 1899, da estátua eqüestre de Caxias, mais tarde transferida para a frente do Palácio da Guerra, junto à Central e diante da Praça da República.

A foto, de Auguste Stahl, mostra calceteiros colocando pedras portuguesas na praça. A vista aérea é de 1921.


quarta-feira, julho 15, 2009

Igreja de São Pedro Príncipe dos Apóstolos

Neste postal de 1920 vê-se o cruzamento da Av. Paulo de Frontin com a Rua do Bispo. À direita, a Igreja de São Pedro Príncipe dos Apóstolos com sua cúpula e, ao fundo, o Corcovado.

Construída pelo Prefeito Paulo de Frontin, com o nome de Av. Rio Comprido, encaminhava o canal regularizador do curso do Rio Comprido. Teve, mais tarde, o nome alterado para Av. Paulo de Frontin.

Sobre ela construiu-se, na década de 1970, o Elevado Engenheiro Freyssinet que liga a saída do Tunel Rebouças à Praça da Bandeira.

quarta-feira, julho 08, 2009

Praia da Saudade

Interessante foto publicada pela revista LIFE, desde o Morro da Urca, na década de 1930. A estátua do Cristo já está no alto do Corcovado.

Em primeiro plano vê-se o aterro que se fazia na Praia da Saudade, onde está situado o Iate Clube Brasileiro que se vê na foto de 1949.

É notável a pouca quantidade de edifícios na primeira foto, em um Botafogo dominado por casas.





quarta-feira, julho 01, 2009

Avenida Beira Mar


Dois interessantes postais do Rio antigo:

O primeiro mostra, no início do século XX, a Av. Beira Mar em direção ao Palácio Monroe. Vê-se, à esquerda, o Passeio Público e um dos torreões que ladeavam a varanda que então existia. É de se notar o Morro do Castelo, ao fundo, e, junto à avenida, o Obelisco; mais além, as torres da Igreja de Sta Luzia.

O segundo, em fotografia tirada do Palácio Monroe, mostra o chamado Cais da Lapa, em frente ao Passeio Público, cujo terraço se vê inteiro, com os torreões que seriam demolidos no início da década de 1920. Vê-se, também, o amplo espaço a ser ocupado pela Praça Paris. Mais além, divisa-se o outeiro da Glória, com sua Igreja.


quarta-feira, junho 24, 2009

Navio no meio da Esplanada?

Nesta curiosa foto surge uma figura estranha: um navio em plena Esplanada do Castelo.

Consta que a construção deveu-se a um certo Cordão dos Laranjas, e serviu para acolher foliões em bailes de carnaval.

Nesta foto, de 1936, que abrange grande parte da esplanada surgida com o desmonte do Morro do Castelo, é possível identificar pontos, tanto os ainda hoje existentes, como uns poucos desaparecidos.

A partir do canto inferior direito da foto: parte do telhado do Paço, na época prédio dos Correios; ao lado, a cúpula do Palácio Tiradentes e, adiante, as torres da Igreja de São José.

É de se ressaltar que, à época, no edifício do Paço estava instalado o Departamento de Correios e Telégrafos que havia construído um prédio no pátio interno, demolido quando da restauração do Paço.

Nos fundos do Palácio Tiradentes, a Rua Dom Manoel com parte do atual Anexo da ALERJ e, mais à esquerda, o prédio da Marinha (onde hoje está o Museu Naval) seguido do que abriga a Procuradoria do Estado e, o maior e mais à esquerda, a Biblioteca do Tribunal de Justiça.

Vê-se claramente, como prolongamento da Rua Primeiro de Março, o traçado da larga avenida que homenagearia Antonio Carlos Ribeiro de Andrada, Presidente do Estado de Minas Gerais (1926-1930), ornada de árvores.

Mal se distingue as torres da Igreja de Sta Luzia na esquina da Av. Pres. Antonio Carlos com a Rua de Santa Luzia. A Av Presidente Wilson quase não aparece, mas o edifício da Esso, próximo à Av. Rio Branco, destaca-se, praticamente isolado.

Há um trecho da Rua México bem visível nos fundos da Biblioteca Nacional e do Edifício do atual Museu de Belas Artes. A Avenida Rio Branco está encoberta, mas os prédios da cinelândia são bem visíveis devido ao espaço ocupado pela Praça Floriano que se adivinha à frente da Biblioteca.

Da Av. Graça Aranha há apenas o traçado, mas a Av. Calógeras se percebe, embora oculta pelos prédios.

O antigo edifício da Associação Cristã de Moços, objeto de post de 11fev2009, e um dos primeiros a ocupar a esplanada, está logo além do curioso navio cenográfico.

Mais além, é possivel distinguir a Praça Paris, com pequena parte ocultada pela cúpula do já desaparecido Palácio Monroe.



quarta-feira, junho 17, 2009

Auto Socorro Urubu



Desde os anos 1950, e por cerca de 30 anos, Isaias da Silva, apelidado Urubu, fez ponto em frente ao Bar Igrejinha, na Rua Francisco Otaviano, perto da esquina da Av. Copacabana, pronto a prestar socorro mecânico aos cariocas, fosse de dia, fosse à noite.

Seu carro-guincho, apelidado de Soneca, um veículo adaptado, velho e cheio de mazelas, precisava de muita água para o motor não fundir; e estava, há anos, a pedir pneus novos e uma demão de pintura.

Era facilmente reconhecido quando ia em socorro de algum motorista em apuros, e, com um aceno, respondia a saudação de motoristas e pedestres. Na boléia, o vira-latas Pega-Firme, seu fiel companheiro. O cão, originalmente branco, já era cinza devido à graxa e sujeira acumuladas.

O trio Urubu, Pega-Firme e Soneca era popular no bairro. Atendia a chamados feitos ao telefone do Bar Igrejinha e, não raro, se via Urubu, ora ocupado em reparos de emergência na rua, fosse em Fuscas, Impalas ou Cadillacs, ora rebocando carros batidos ou necessitados de maiores cuidados, ,

Isaias “Urubu” da Silva aprendeu mecânica servindo ao Exército. Desmobilizado, foi motorista de lotação, trabalhou em oficinas, mas se realizou, de fato, no serviço por conta própria com o carro-reboque. Sua tabela de preços era variável, dependia da cara do freguês, mas sempre razoável.

Figura folclórica da Zona Sul, Urubu permanece na memória daqueles que o conheceram, ou dele precisaram em horas difíceis.

Na foto do carro-reboque na Av.Atlântica, pode-se ver Pega-Firme em seu posto, na janela do motorista.




quarta-feira, junho 10, 2009

O Bonde (parte 2 de 2)

(continuação)

Um trambulhão do bonde atira as moças uma por cima da outra. Uma senhora velhusca, que dormitava no banco fronteiro, accorda, alarmada. Um velho, que lia um jornal, resmunga alguma coisa que não se ouve. O bonde pára e ouve-se o vôar de uma mosca evadida do açougue proximo. Um homem que apparenta 40 annos, com as mãos cheias de embrulhos, queixa-se da carestia da vida ao visinho, que nunca o vira mas que, decerto conhecia, tambem, a carestia.

- Não sei onde vamos parar com o preço de tudo. O pobre ja não pode, pois nem a casa tem garantida. E os impostos? Cada vez augmentam mais. Imagine que tenho mulher e quatro filhas, e mais a sogra, tia da minha Genoveva. Tenho um pequeno atacado de CRUP. É um inferno!...

E olhou, silenciosamente, para um gato morto que a Limpeza Pública tinha esquecido á porta de uma casa velha. O outro concordou, com um gesto, e fez, tambem, uma cara de soffrimento.

- Ó idiota! Não vê que «tem» uma senhora subindo?

O «idiota» é o motorneiro, que ia dando marcha no carro depois da violenta parada. Trava, de novo, o vehiculo, e o conductor começa a discutir com o homenzinho que reclamou por conta da senhora que ia soffrendo um choque e suas consequencias traumaticas. O homenzinho, que quer conquistar as sympathias do bonde em peso, ameaça dar pancada no conductor. A dama que escapou de cair abana-se, muito vermelha, com uma cara de casa de commodos e de tyrana domestica. O caixeiro, que tem um corpo de Hercules de circo, approxima-se do banco em que está o cavalheiro salvador, enquanto os passageiros se voltam, farejando um escandalo e uma briga. Trocam-se desaforos pesados e, afinal, um soldado de polícia que assistia, displicente, á scena, resolve intervir em nome da Lei. E a Lei apaga os odios nascentes...

- Toca o bonde!

- Espera, homem! Pára o bonde!

É um senhor, que brande no ar um bengalão de junco e que tem, para carregar no vehiculo, a mulher, outra mulhar, e cinco filhos menores. Os passageiros fazem gestos, irritados, de impaciencia, e o conductor berra do alto da plataforma, com uma voz de commando:

- Não ha lugar!

Uma sensação de alivio invade a população ambulante. O motorneiro pisa na campainha, reclamando o sinal de partida. E duas pancadas vibram, afinal, puxadas pelo cordão sujo que a mão do conductor manobra. O bonde arranca, num grande esforço de rodas de aço, e um turbilhão de poeira se alevanta envolvendo tudo num banho secco de calor e de sujo... E o sol cae como uma immensa cataplasma de fogo na face das cousas queimando, calcinando, e arrancando pulverisações de ouro na pedra sórdida das ruas...

[ilustrações: J.Carlos (1884-1950)]

-o0o-


quarta-feira, junho 03, 2009

O Bonde (parte1 de 2)


Transcrição da crônica de Herilo Neves na Revista CARETA de 14jan1928. (Parte 1). É de se observar a grafia da época.

O BONDE

(Scenas da vida carioca)

O bonde rola, ruidosamente, por sobre os trilhos asperos, mal engraxados como as botas dos homens pobres. Uma nuvem de poeira acompanha o vehiculo, tornando mais sujo e mais triste o conductor, que a todo momento enfia os olhos pelos bancos, farejando rapazes relapsos, mocinhas distrahidas, gordas senhoras sonolentas.

- Faz favor!

E agita no ar um punhado de nickeis, cujo tinido tem por fim acordar as consciencias esquecidas do tostão da passagem. O sol envolve tudo num amplexo de fogo e, no ar, partículas doiradas parecem faúlhas de um incendio enorme. Ha um cansaço immenso em todas as cousas, e a propria terra parece abrir-se num infinito bocejo de tedio. Outros bondes passam em sentido contrario, com um grande rumos de velhos ferros que se chocam. Carroças ferem, com suas rodas de aço, a face rude dos paralellepípedos. Á porta das casas commerciaes empregados em manga de camisas abanam-se com ventarolas de RECLAME e apregôam roupas brancas para senhoras,sapatos a 20$ o par. Um garoto, que pulou para a plataforma do bonde, offerece a sorte grande, que ninguem quer, e faz caretas ao caixeiro do vehículo que ameaça dar-lhe meia duzia de ponta-pés. Como as casas, succedem-se as pessoas, na rua. Uns vão muito apressados, enxugando o suor com uns lenços cheios de manchas de pó. Outros detêm-se, ao passeio,dicutindo negocios, segredando conquistas, invectivando o tempo e o verão inclemente. Odôres succedem-se assignalando ás pituitarias humidas a pharmacia, o estábulo, a venda de galinhas e de fructas. E o bonde rola, por entre pragas do motorneiro que faz tilintar a campainha de aviso, e reclamações dos passageiros que têm pressa em voltar ao trabalho.

- Como é? O bonde sae ou não sae?

- Vae largar! Larga!

Um homenzenho nervoso, com a cara marcada de bexigas, levanta-se para ver o que está detendo a marcha do vehiculo. Foi uma carroça que se atravessou na linha. O carroceiro, entre palavrões, fustiga os míseros burros esgottados; o motorneiro bate, com impaciencia, a campainha do vehiculo, e pescoços curiosos se alongam para fora do bonde inquirindo, escutando, animando a marcha do carro. Os burros, num último esforço, fazem a carroça saltar do trilho. Uma ultima praga e o primeiro arranco do bonde.

No bando da frente, duas collegiaes, vestidas de azul e branco, conversam com animação infantil. Cochichos e sorrisos rapidos se cruzam e se succedem vertiginosamente.

- Vaes á aula, amanhã?

- Eu? Não. Vou dansar hoje na casa da tia Maricota.

- Ha festa, lá?

- E então! Tia Maricota faz annos de casamento. E o Carlito vae...

(continua no próximo post.)


quarta-feira, maio 27, 2009

Recolhimento do Parto

O Recolhimento funcionava em um edifício de três andares, na esquina das Ruas da Cadeia e dos Ourives (atuais Assembléia e Rodrigo Silva). Fora construído a partir de 1742 e inaugurado, em 1759, pelo Bispo D. Frei António do Desterro. Embora pertencente à Irmandade da Misericórdia, adquiriu o “sobrenome”, por ficar ao lado da Igreja de Na. Sa. do Parto.

Conta-nos Charles Dunlop que, a princípio, “destinava-se a albergar mulheres de vida desonesta que, arrependidas do pecado, procuravam na religião o caminho da regeneração”. Em pouco tempo, porém, transformou-se em local onde eram internadas filhas desobedientes (as que não queriam casar-se com o noivo escolhido pelo pai), e esposas recalcitrantes na desobediência aos maridos.

Na noite de 23 para 24 de agosto de 1789, irrompeu violento incêndio no prédio. Populares arrombaram as portas, retiraram as mulheres da prisão a que estavam recolhidas, e combateram o incêndio com baldes de água trazidos desde o chafariz da Carioca (naquele tempo ainda não havia Corpo de Bombeiros na cidade).

No dia seguinte ao incêndio, o vice-rei Luís de Vasconcelos e Souza incumbiu mestre Valentim a construir um novo prédio para o Recolhimento. O que, para infelicidade das mulheres, foi feito com toda a urgência: o novo prédio ficou pronto em dezembro do mesmo ano. É de observar que o Recolhimento funcionou neste novo prédio até 1812, quando foi levado para o Largo da Misericórdia, em prédio onde funcionaria, depois, a Escola de Medicina. O prédio junto à Igreja de N.S. do Parto foi demolido em 1906, quando das obras de alargamento da Rua da Assembléia.

As fotos reproduzem quadros de Leandro Joaquim, retratando o incêndio, e de João Francisco Muzzi que mostra Mestre Valentim apresentando ao vice-rei as plantas do novo edifício do Recolhimento.




quarta-feira, maio 20, 2009

Polícia Especial

Era uma tropa de elite da Polícia Civil, foi criada em 5 de agosto de 1932, no Distrito Federal, e extinta em 21 de abril de 1960, quando da transferência da Capital para Brasília, ocasião em que o antigo Distrito Federal passou a ser o Estado da Guanabara.

No início eram 150 (50 policiais militares e 100 atletas selecionados nos clubes cariocas); e teve seu efetivo ampliado, por meio de concursos públicos, para 500 homens. Vestiam um uniforme cáqui, e usavam um boné encarnado.

O quartel dessa tropa ficava no alto do Morro de Santo Antonio, como se pode ver na foto que mostra o Tabuleiro da Baiana em primeiro plano.

Eram empregados em ações anti-tumultos, em grupos de 25 homens que chegavam em um caminhão-choque, e desembarcavam, cassetete à mão, batendo firme na turma que teimava em não dispersar-se.

Participou ativamente da repressão tanto da Intentona Comunista de 1935, quanto do Movimento Integralista de 1937.

Com o fim da Ditadura de Vargas, passaram a guarnecer as radiopatrulhas, como mostrado na foto de 1948

Mário Vianna, que se popularizou como árbitro e, mais tarde, comentarista de futebol, foi, dentre outras profissões, componente dessa tropa.